Meteorito de Pará de Minas

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                                                                           Por Ana Maria Campos*                                   

                               Em 28 de abril de 2005 o Museu Histórico de Pará de Minas recebeu a visita do sr. Wan-Dick Almendro de Almeida, na época estava com 78 anos, ocasião em que contou à diretora Suzana Franco dos Santos que na infância viu cair um meteorito em Pará de Minas e que ele se encontra exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, cidade onde reside. Meteoritos são fragmentos de corpos sólidos naturais (asteróides, lua, marte, cometas ...), que vindos do espaço penetram a atmosfera terrestre, se incandescem pelo atrito com o ar  e atingem a superfície terrestre. A chegada de um meteorito é anunciada pela passagem de um grande meteoro, chiado e estrondos cacofônicos (IN: WWW.meteoritos.kit.net/quesaometeoritos.htm).
                               Wan-Dick Almendro é natural de Pará de Minas, cidade onde residiu até os 17 anos de idade, transferindo-se para o Rio de Janeiro. O amor pela terra natal é transmitido na fala: – “gosto muito de Pará de Minas e sempre que posso venho pra cá. Sei de tudo que acontece aqui.”
                               Wan-Dick Almendro de Almeida rememorou a queda do meteorito: – Eu era um menino de 7 anos e estava brincando com um amigo na rua quando vi passar no céu uma bola de fogo enorme com uma cauda e ela foi em direção à serra onde hoje está o Cristo; mas na época, em 1934, não tinha o Cristo não, era só a serra com um cruzeiro. A claridade foi tanta que iluminou até as formiguinhas (risos), dava para ver tudo, porque eram 19 horas quando esse meteorito passou.
                                Indagado pela entrevistadora se ele sabia como o meteorito foi encontrado e como foi repassado ao Museu Nacional, Almendro respondeu:  – Foi um senhor modesto que estava passando de carroça em uma estrada de chão quando o pneu da carroça esbarrou em alguma coisa. Então o homem foi verificar e viu uma pedra, que ele tentou levantar e não conseguiu. Chamou um amigo para ajudar a tirar a pedra do caminho. A pedra é pequena, mas é muito pesada, ela pesa 112 quilos. Depois um engenheiro do DNER viu a pedra na porta da casa desse senhor humilde e ficou com ela, vendendo-a para o Museu Nacional por 114 mil reis. Naquela época era muito dinheiro (...).
                               Ainda residindo no Rio de Janeiro e já aposentado, Wan-Dick Almendro de Almeida foi ao Museu Nacional conseguindo fotos do Meteorito de Pará de Minas para o Museu da cidade onde nasceu (ver abaixo). Conseguiu também uma publicação do próprio Museu Nacional, em inglês, dedicada ao meteorito que aqui caiu em 1934. Na publicação mencionada, que é o Boletim do Museu Nacional, Nº 18, de 06 de outubro de 1952, mais detalhes são encontrados sobre o Meteorito de Pará de Minas, denominação ligada ao local onde foi encontrado, técnica usualmente utilizada para facilitar a localização.
                               Reproduzimos abaixo algumas informações do boletim:

                                                                  BOLETIM DO MUSEU NACIONAL
                                                                               NOVA SÉRIE
                                                                         Rio de Janeiro - Brasil
                                                             GEOLOGIA  -   Nº. 18   -   6 de outubro de 1952

                                                                 METEORITO DE PARÁ DE MINAS 
                                                                 Por Walter da Silva Curvello e Cândido Simões Ferreira

                                O presente documento trata de um meteorito que foi preservado completamente na coleção do Museu Nacional do Rio de Janeiro durante quinze anos, sem uma descrição publicada e quase totalmente desconhecido (...). A única referência escrita sobre esta massa meteórica aparece no Boletim do nº. 31 do Serviço da Produção Mineral que é um relatório do Diretor desta pesquisa durante o ano de 1937 de onde nós conseguimos um pouco de informações.
                               Conforme a referida publicação, o meteorito caiu em 1934 nas terras da fazenda Palmital, próxima da cidade de Pará de Minas [grifo nosso] que situa-se perto, e é vizinha do distrito de Igaratinga, Estado de Minas Gerais - Brasil.
                               Um fragmento dessa massa foi levado e submetido à análise no Laboratório (Serviço de Produção Mineral) mencionado e o resultado foi este:“É Holosiderio, composto de ferro e pequena porção de níquel.
 [grifo nosso]. Este meteorito foi comprado pelo Museu em 1941, não havendo, porém nenhum registro sobre o nome da pessoa envolvida nessa compra, circunstâncias da queda e outros dados úteis. Um considerável fragmento (+ ou - 8 kg) foi retirado da massa meteórica e levado para a Universidade de São Paulo em 1941, supostamente para estudo. Porém, nada e nenhum papel foi publicado cientificamente sobre esse meteorito.
                               O Meteorito de Pará de Minas é, no entanto, uma real e grande massa, pesando originalmente um pouco mais de 112 kg [grifo nosso]. A maior massa na coleção do Museu Nacional pesa 101.900 Kg. Algumas pequenas lascas (fatias) preparadas para troca faziam um total de 1.238 Kg. Uma dessas partes foi enviada, em troca, para o Museu Nacional dos Estados Unidos, em Washington, e outro para o Museu de Meteoritos Americano, no Arizona.
                              As coordenadas geográficas do local da queda da massa principal (a massa meteórica) são: 19º 52’ Lat. S. e 44º  37’  long. W [grifo nosso].”

                              Na descrição do meteorito, o boletim relata: tem um aspecto peculiar devido à ausência completa dos buracos e manchas, tão comuns nesses corpos extraterrestres. Se parece com uma pêra deformada que tem no seu ápice vestígios fortes de uma fratura ocorrida durante os últimos momentos do vôo atmosférico da massa, (...) O fragmento separado assim, poderia ter caído muito longe do local onde a massa principal foi encontrada. É então possível que, no futuro outra massa meteórica pequena seja descoberta nos distritos vizinhos ao redor de Pará de Minas ou Igaratinga [grifo meu], neste caso nós devemos ter cuidado para procurar semelhanças com este meteorito presente. É até mesmo possível que essa fratura e a conseqüente separação em dois ou mais fragmentos tenha ocorrido quando o corpo estava muito longe do lugar da queda da massa principal [grifo meu], (...). A superfície externa do meteorito de Pará de Minas é oxidado, talvez muito oxidado para um meteorito que tenha caído em 1934, (...)”.

                             O boletim finaliza apresentando a análise química do meteorito, constatando-se que é do tipo metálico; o documento ainda registra os métodos empregados na investigação. 
                             Com o minucioso relato apresentado na publicação do Museu Nacional, traduzido por Fátima Carvalho Campos, a quem agradecemos pela gentil colaboração, veio à tona que parte dele poderia ainda  ser encontrada em nossa região se já não o foi inadvertidamente. Caso tenha sido, esperamos que esteja preservada e que tenha despertado a curiosidade da pessoa que a encontrou, estimulando-a a pesquisar a singular peça.                                               
                             Os meteoritos são portadores de importantes informações uma vez que, viajando pelo vasto universo são como fósseis que revelam enigmas a quem os investigam. O cosmo, desde a antiguidade, atrai a atenção dos seres humanos pelos segredos que carrega, força e magnetismo.
Veja abaixo as fotos do Meteorito de Pará de Minas.

*Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora da história de Pará de Minas, diretora do Museu Histórico Municipal.

                                                                                                                          Em 05.09.2010

Van Dick Almendro de Almeida com o Meteorito de Pará de Minas.
Van-Dick Almendro de Almeida
com o Meteorito de Pará de Minas.
Tamanho do Meteorito de Pará de Minas
em relação a uma caneta.
Esq/dir: Maria do Carmo Burgos e Maria Eustáquia da Costa (Taquinha) ladeam o
meteorito que caiu em Pará de Minas em 1934, quando da visita delas ao Museu
Nacional, no Rio de Janeiro, em 2003