Benjamim de Oliveira sob o olhar da pesquisadora Ermínia Silva

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                                                                                                              Por Terezinha Pereira*
 
 
               Batizado como Benjamin Chaves, mais tarde e até hoje, é conhecido como Benjamin de Oliveira. Nasceu no dia 11 de junho de 1870, na Fazenda dos Guardas, pertencente a Pará de Minas, antes Cidade do Pará, Vila do Pará e Patafufo, conforme as escrituras. Era o quarto filho de Malaquias e de uma escrava de nome Leandra. Adolescente, dizem que aos 12 anos, escapou do jugo do branco senhor de terras e acompanhou um circo de nome Sotero, com a intenção de trabalhar. Como sua pele era escura, no circo, davam-lhe trabalho e tratamento semelhantes aos que ele recebia dos que se achavam senhores de terras e de gente. Do artista Severino de Oliveira, seu orientador no circo, adotou seu novo sobrenome. No entanto, seu jeito de ser o levava a soltar-se de amarras. Por isso, abandonou a trupe do Sotero quando fazia três anos que a acompanhava. Depois disso, passou por diversos “donos” e paragens, porém, sem nunca deixar escapar oportunidade de aprender das manhas do circo. Com o passar do tempo, já fazia acrobacias e um dia, precisou ser palhaço substituto. Da primeira vez, a platéia o estranhou. Um palhaço de cor? A cor não foi peia no seu caminho. Em poucos dias, o respeitável público percebeu que Benjamim era um palhaço de cor, de raça e de muita graça. Assim, de acrobata a palhaço, o artista também passou a ser cantor, instrumentista, dramaturgo, músico, produtor e ator. Sem nunca deixar de ser um palhaço-artista.
              Quando o Brasil estreava a república, Benjamin estreou na cidade de São Paulo, no circo de Albano e Fructuoso Pereira. Depois desse, veio o “Pavilhão Circo Zoológico Francês”, empresa de Jean Pierre & Frère, em S. João del Rei. Nesse circo, ele conheceu Affonso Spinelli, trapezista volante e palhaço, que teve muita importância na sua vida profissional. Ao sair da companhia de Pierre, Benjamim foi trabalhar no circo do português Manuel Gomes, chamado de Caçamba. Com o circo de Caçamba, Benjamim conheceu o Rio de Janeiro. Conta-se que, naquela ocasião, quando o circo estava armada em Cascadura, Benjamim teria “caído nas graças” do então presidente da república, Floriano Peixoto, que era admirador de espetáculos circenses. Segundo dizem, esse fato teria favorecido o crescimento do circo como espetáculo popular e de Benjamim como artista, uma vez que Floriano muito fez para que fossem criados bons espaços para a instalação da lona. 
               Algum tempo depois, em companhia de Spinelli, então proprietário de circo, Benjamim acabou fazendo do Rio de Janeiro a sua praia. Capital da república, o Rio lhe proporcionou espaço e ocasião para prosperar seu veio artístico. Espaço e ocasião para novas atividades artísticas foram coisas que ele não deixou escapar. Entre 1907 e 1912, palhaço de múltiplas cores e bastante conhecido, Benjamim escreveu e dirigiu peças de teatro, gravou cançonetas, lundus e modinhas que cantava nos entreatos do circo, acompanhado de um violão.             
               Em 1908, Benjamim de Oliveira foi filmado no Circo Spinelli pela Photo-Cinematographica Brasileira de Antonio Leal e José Labanca. Essa foi a primeira filmagem de adaptação de um romance brasileiro com câmara móvel: “Os Guaranis”, pantomima inspirada em José de Alencar, adaptada por Benjamim, na qual ele fazia o papel de Peri.
              Até 1938, foi o principal nome do circo brasileiro, atuando no Circo Spinelli como Tony ou Clown (palhaço) e como ator teatral em diversas peças promovidas como complemento da sessão circense. Benjamin encerrou sua carreira no circo na década de 1940, vindo a falecer no Rio de Janeiro no dia 3 de maio de 1954.
 
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              A escritora e pesquisadora Ermínia Silva é mestra em História pela Universidade Estadual de Campinas (1996) e doutora em História da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Atualmente desenvolve atividades de formação e de pesquisa no Centro de Formação em Artes Circenses (CEFAC) e na Escola Nacional de Circo – Funarte. Vem produzindo conhecimento na interface entre a história do circo, com ênfase no Brasil, e a construção da memória, científica ou não, da produção cultural na sociedade brasileira, em particular do século XIX até hoje, no XXI. É autora de “Circo-teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil”, editado em 2007, pela Editora Altana. Esse livro registra a pesquisa de Ermínia para obter seu título de doutorado.
             Enquanto escrevia o texto de sua tese sobre Benjamim de Oliveira e o circo-teatro no Brasil, em busca de informações sobre as origens do artista, Ermínia visitou a Fazenda dos Guardas, lugar onde ele nasceu e também consultou livros e periódicos no Museu Histórico de Pará de Minas. O livro de Ermínia Silva, segundo o seu apresentante Luís Alberto de Abreu, revela o olhar diferente da autora sobre o fenômeno circense. Divide-se em 4 capítulos:
1º. capítulo: período anterior à chegada do circo no Brasil até o ano de 1882, quando Benjamim foge com o Circo Sotero.
2º. capítulo: entrada de Benjamin da atividade circense. Período examinado: de 1882 a 1890. Em 1889 deu-se a iniciação de Benjamin como palhaço, instrumentista e cantor. Ele se torna um dos responsáveis pela divulgação da produção musical e teatral no Brasil nos espaços em que trabalha, abrindo novas possibilidades para a teatralidade circense.
3º. capítulo: período de 1890 a 1900, retrata a consolidação de Benjamim como palhaço, cantor, instrumentalista e ator. Nessa época, ele estreita relação com outros atores, autores, músicos e empresários que aparecem como parceiros e protagonistas da produção do espetáculo circense.
4º. capítulo: vê o reconhecimento do palhaço Benjamim de Oliveira como compositor, ator, músico, instrumentista, adaptador, parodista, autor e diretor de espetáculo circense. Mostra que artistas como ele, para levar adiante seus projetos, precisavam articular, ter conhecimentos e formação sobre teatro, literatura, cinema, música, coreografia, cenografia, entre outros.
              Ermínia examinou o texto de 19 peças, nas quais Benjamim consta como autor, adaptador ou parodista, tanto de textos como de músicas. Segundo ela, ele cultivou diversos gêneros: farsas fantásticas e dramáticas, peças de costumes, revistas, operetas, burletas(farsas musicadas, de origem italiana) e um melodrama policial. Algumas peças que ela destaca:  “A Viúva Alegre”, de Franz Lehar, dirigida por Benjamim em 1909 que mereceu artigo de Arthur Azevedo e Otelo, de Shakespeare. Cita também outras peças de sucesso: “O diabo e o Chico”, “Vingança operária”, “Matutos na cidade”, “A noiva do sargento”, “Os garibaldinos”, “D. Antônio e os guaranis”, “Um para três”, “A princesa Crystal”, “O testamento”, “Tudo pega”, “Cupido no oriente”, “Os pescadores”, “A pupila do diabo”, “A barraca do cigano”.
OBS: O Museu Histórico de Pará de Minas – MUSPAM tem no acervo, para consulta e pesquisa no local, cópia de três peças de Benjamim de Oliveira, fornecidas pela Biblioteca Nacional: “Os pescadores”, “A pupila do diabo, “A barraca do cigano”.
Músicas gravadas: Benjamim gravou na Columbia, por volta de 1910, o monólogo “Caipira mineiro” e o lundu “As comparações”, de autores desconhecidos. No mesmo ano, gravou em duo com o cantor Mário Pinheiro o lundu “O baiano na rocha” e a modinha “Se fores ao Porto”, também de autores desconhecidos.
 
              À Ermínia, nossa gratidão por mostrar a todo país e ao mundo, através de suas atividades e desse livro, a importância de Benjamim de Oliveira, cidadão de Pará de Minas, para a arte interpretativa no Brasil.
 
 
*Terezinha Pereira é membro da Academia de Letras de Pará de Minas.