O Cristo Redentor de Pará de Minas

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                                               Flávio Marcus da Silva*

                  No dia 25 de agosto de 1963, a cidade de Pará de Minas recebeu das mãos de seu ilustre filho, Joaquim Xavier Villaça, um presente que jamais seria esquecido, pois ainda hoje encontra-se majestoso e imponente no alto da Serra de Santa Cruz, onde pode ser visto e apreciado por toda a população: a estátua do Cristo Redentor.
                 Com 12 metros de altura, a imagem do Cristo é um símbolo da fé cristã, traço marcante da tradição mineira e, mais especificamente, do povo pará-minense, desde os momentos iniciais do povoamento da região. De braços abertos, o Cristo simboliza também a hospitalidade afetuosa desse povo, sempre pronto a acolher os visitantes e pessoas que aqui vêm residir com muita simpatia e generosidade.
                Joaquim Xavier Villaça – mais conhecido como Nem Villaça –  foi o idealizador do projeto e, mesmo contando na época com mais de 80 anos, lutou com muita garra e determinação para que o seu sonho se tornasse realidade. Nessa empreitada, contou com a colaboração do engenheiro civil Ives Soares da Cunha, dos pedreiros Adriano de Carvalho e Vicente Pereira Duarte, do Sr. José Alves Ferreira, que doou o terreno, e de muitos outros cidadãos que acreditaram no projeto e se empenharam para a sua concretização. O coração de alumínio no peito da imagem, por exemplo, foi uma contribuição do povo, que doou talheres, copos, formas e outros utensílios para que fossem fundidos e utilizados como matéria-prima básica para a sua confecção.
               Em entrevista à Gazeta Pará-minense, datada de 05 de abril de 1991, o pedreiro Vicente Pereira Duarte, conhecido popularmente como “Vicente Brás”, lembrou o momento em que o engenheiro Ives Soares da Cunha lhe procurou, convidando-o para integrar a equipe de construção do Cristo. “Vicente Brás” recorda com muito carinho esse momento, lembrando que o sonho de Nêm Villaça era “abrir a janela de sua residência, na Praça Francisco Torquato, e ver um Cristo no alto da serra, toda manhã”.
              Para muitas pessoas que não conhecem a história do Cristo Redentor de Pará de Minas, a estátua no alto da Serra de Santa Cruz não passa de uma imitação do Cristo do Rio de Janeiro, inaugurado em 12 de outubro de 1931, tendo recebido, na época, o título de maior escultura art déco do mundo. De fato, a primeira inspiração de Joaquim Xavier Villaça foi, segundo seu neto, Marcos de Abreu e Silva, uma pequena imagem do Cristo Redentor do Rio, que seu avô comprou na loja do Sr. Luiz Martins dos Santos.  Ademais, é fato também inegável que a relação de Nêm Villaça com o Rio de Janeiro era de longa data.
              Nascido em 30 de julho de 1878, o idealizador do Cristo de Pará de Minas foi  ainda jovem para a capital carioca, onde trabalhou na casa comercial Barbosa dos Santos e Cia., tendo ali ocupado vários cargos. Embora já estivesse de volta a Pará de Minas na época em que a estátua do Rio começou a ser construída, Nêm Villaça certamente recebia de seus conhecidos notícias sobre o andamento das obras – iniciadas em 1926 e concluídas cinco anos depois. Talvez tenha até mesmo visitado o Rio nesses anos e acompanhado de perto o transporte e a montagem das peças que constituíram a imponente escultura no alto do Corcovado.
              Entretanto, apesar da inspiração, o Cristo Redentor de Pará de Minas é uma obra absolutamente original. Embora tivesse elegido como ponto de partida uma réplica do Cristo do Rio, Joaquim Xavier Villaça desenvolveu o seu modelo a partir de estudos de moldagem que realizava em sua casa, utilizando para isso dezenas de estatuetas de argila que ele próprio modelava. Criou, assim, um modelo original que, aos poucos, foi se transformando na grande escultura que hoje se ergue no alto da Serra de Santa Cruz, revelando um traçado peculiar que lembra muito pouco o do Cristo carioca.
            A obra, após mais de 5 anos, foi concluida e inaugurada no ano de 1963. O Brasil encontrava-se a caminho do Golpe Militar que derrubaria o governo de João Goulart em 31 de março de 1964. Nas capitais, o clima era de tensão e medo. A CGT – Central Geral dos Trabalhadores – havia sido criada em agosto de 1962 e a movimentação dos trabalhadores sindicalizados amedrontava os setores mais tradicionais da sociedade. Foi um período de ampla participação popular em movimentos sociais e políticos que revelaram o vigor e o espírito de luta da sociedade brasileira. Contudo, o governo de João Goulart foi rapidamente associado ao comunismo e a reação dos grupos conservadores não se fez esperar. Segundo a historiadora Heloísa Maria Murgel Starling, no seu livro “Os Senhores das Gerais”, crescia, às vésperas do Golpe, “a crença generalizada em uma ampla infiltração comunista no governo, nas Forças Armadas, nos partidos políticos e nas organizações sindicais e estudantis, o que vinha gerando a proliferação de greves com motivação política ostensiva”. Em Belo Horizonte, o Golpe Militar foi apoiado pelo Governador do Estado, Magalhães Pinto, e por amplos setores da sociedade, que expressavam seu horror ao comunismo através das famosas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”.
              Embora estivesse próxima da capital, Pará de Minas parece não ter experimentado a efervescência social e política que marcou o período 1962-64 em Belo Horizonte e nas demais capitais brasileiras. Mesmo assim, é certo que a construção do Cristo Redentor não se deu em meio a um clima de completa tranquilidade. Não se pode afirmar quais eram as preferências  ideológicas e políticas daqueles que o construíram, mas certamente havia no íntimo de cada um o desejo de que o Cristo, de braços abertos no alto da serra, abençoasse os cidadãos de Pará de Minas e iluminasse o caminho daquele povo em meio às sombras de um futuro incerto e pouco acolhedor.
              E lá estava Ele, abraçando a cidade que, naquele dia memorável, levantou seus olhos e assistiu admirada à inauguração da grande escultura. Joaquim Xavier Villaça contava, na época com 85 anos de idade. O idealizador de tão audacioso projeto, juntamente com os outros construtores, puderam, finalmente, apreciar o resultado do árduo trabalho e participar, juntamente com familiares e amigos, da solenidade de inauguração, realizada no alto da serra em 25 de agosto de 1963. Nela esteve presente o Bispo Diocesano Dom Cristiano Portela de Araújo Pena, que após dar sua benção ao monumento, celebrou uma missa ao pé do Cristo, à qual assistiram inúmeros fiéis.
             Nem Villaça, após ter ajudado a fundar o Centro Literário Pedro Nestor, no início do século, a Companhia Industrial Paraense e a Companhia Melhoramentos de Pará de Minas; ter participado da Comissão Construtora do novo Hospital Nossa Senhora da Conceição, do Grupo Escolar Torquato de Almeida e do Ginásio São Francisco – hoje Escola Estadual Fernando Otávio; e ter construído o primeiro prédio da cidade, com três andares, pode fechar os olhos em paz para esta vida, admirando da janela de sua casa a sua obra-prima.  Joaquim Xavier Villaça faleceu em 27 de março de 1965.
             Em 31 de maio de 1970, foi novamente celebrada uma missa no alto da serra, durante a qual o celebrante, Padre Gabriel Hugo da Costa Bittencourt, benzeu a imagem do Cristo Redentor. Após a celebração, o Lions Clube de Pará de Minas homenageou o idealizador do projeto com uma placa – afixada no pedestal do monumento -, na qual o povo pará-minense expressava sua gratidão pelo presente oferecido à cidade.
             Em 1990, foi concluída a construção de uma escadaria de acesso ao Cristo, pela qual, todos os anos, mais de 6000 pessoas se dirigem ao alto da serra, durante a Semana Santa, para rezar em louvor a Deus e a seu Filho. Na Sexta-Feira da Paixão, uma enorme multidão pode ser vista subindo a Serra de Santa Cruz, ritual que se repete todos os anos, cada vez com maior concurso de fiéis.
            Hoje, a região que circunda o Cristo Redentor está de cara nova. Foram inaugurados em 26 de setembro de 2002 passeios e alambrados em volta da estátua, e a estrada que dá acesso ao alto da Serra de Santa Cruz foi asfaltada, proporcionando aos inúmeros visitantes maior comodidade e segurança ao se dirigirem a um dos pontos turísticos mais importantes de Pará de Minas.

 *O autor é doutor em História.


  

Placa homenagem do Lions Clube com as estrofes de autoria do Padre Gabriel Hugo da Costa Bittencourt.

  

Joaquim Xavier Villaça - Nem Villaça - idealizador e construtor do Cristo Redentor de Pará de Minas. Acervo da Família.